Xisco Bonnin abandonou o leme do Felgueiras B a duas jornadas do fim da Fase de Manutenção da Divisão de Honra da Associação de Futebol do Porto (AFP). O treinador espanhol, de 72 anos, diz ter sido “enganado” e responsabiliza a direção pela descida à 1ª distrital.
Num depoimento arrasador, Xisco Bonnin justifica a decisão de demitir-se do comando técnico do Felgueiras B, tomada ainda na sexta-feira, antes do jogo do último domingo, no terreno do Desportivo das Aves, com a falta de condições de trabalho que encontrou no clube e, sobretudo, devido à escassez de atletas para treinar e jogar.
O treinador espanhol, que assumiu o leme da formação secundária azul grená no inicio do ano, diz sentir-se “enganado” pela direção do clube.
“Fui enganado, primeiramente, porque prometeram-me sete reforços e apenas chegaram dois. As restantes contratações foram utilizadas para a equipa A, porque a equipa principal tem tudo e a equipa B foi deixada na mão de Deus”, lamentou.
Xisco Bonnin garante ainda que lhe foi prometida a possibilidade de poder convocar alguns dos jogadores menos utilizados da equipa principal, mas também isso não se concretizou.
“Desceram dois ou três jogadores da equipa A, mas eles não queriam vir. Se eles vinham, vinham, se não vinham, também não se passava nada. Houve um momento em que disse que não queria ninguém da equipa A, apenas que os dois jogadores que eram da equipa B, o Durães e o Alex, que estavam a treinar com a equipa A, pudessem vir treinar comigo. Vieram três vezes a uma sexta-feira à noite e depois de terem treinado de manhã”, revelou.
“Uma vez confrontei o presidente com esta situação. Disse-lhe que se algum jogador da equipa A estivesse disponível, para vir treinar connosco à sexta-feira. Ele respondeu que tinha lógica treinar connosco, mas nunca vieram. Por isso, senti-me enganado. Aguentei, aguentei, até à passada sexta-feira. Mandei uma carta a abordar este tema, que agora tornei pública nas redes sociais, mas ninguém me respondeu. Se me tivessem respondido, talvez não tivesse tomado esta decisão”, confessou.

Além disso, o treinador espanhol garante que “nunca sabia” com que jogadores podia contar para os desafios da equipa B na Divisão de Honra AFP.
“Tive um jogador que, por três vezes consecutivas, não veio ao jogo e sempre com a mesma desculpa: que tinha um exame na universidade. Ao domingo, nenhuma universidade do mundo tem exames. Esse jogador nunca foi punido, nem nunca o chamaram à atenção. Num altura, tive que alterar a ficha de jogo porque soube que não vinha às 13:10. O jogo era às 16:00”.
“Na semana passada, precisávamos de jogadores. Vieram dois juniores na terça-feira, na quinta mandaram outros dois diferentes e na sexta outros dois diferentes. O treinador dos juniores disse-me que podia convocar qualquer um para o jogo da equipa B no domingo, mas também teriam de alinhar pelos juniores no sábado. E eu pergunto, vou convocar jogadores juniores que jogam ao sábado, para jogarem ao domingo, numa equipa que estava tentar salvar-se da descida de divisão?”, questionou.
Xisco Bonnin assegura também que “as condições de trabalho eram muito fracas, por falta de material de treino”.
“Muito exercícios de treino não se podiam fazer por falta de material. Quando cheguei só estavam disponíveis oito bolas. Reclamei e só passados dois meses chegaram mais dez bolas, sendo que duas delas se estragaram no primeiro dia e não foram repostas. Na semana passada, até roupa para treinar faltou”, revelou.

O Felgueiras B desceu de divisão pelo segundo ano consecutivo. Na temporada passada, caiu da Divisão de Elite à Divisão Honra. Esta época já foi despromovido à 1ª Divisão distrital, após a derrota do passado domingo, no terreno do Desportivo das Aves, por 3-2.
Xisco Bonnin responsabiliza a direção pelo sucedido, porque “a equipa B é como se não existisse no Felgueiras”.
“O problema das descidas não é dos jogadores, nem dos técnicos que passaram por aqui, porque eu fui o terceiro ou quarto técnico que passou por aqui. O problema vem da direção. Algo está a falhar”, concluiu.
Xisco Bonnin foi o terceiro treinador do Felgueiras B esta temporada. A época começou com Daniel Teixeira, que deixou o cargo em outubro, justificando a decisão com os “maus resultados”, a indisponibilidades de atletas da equipa A e a “imaturidade de alguns jogadores do plantel”.
Segui-se José Manuel, que apresentou a demissão no final de dezembro, ao cabo de apenas 8 jogos.
Recorde-se que também Nuno Simães, dirigente responsável pela equipa secundária azul grená, bateu com a porta no passado mês de fevereiro, em conflito com a direção do clube.




